Domingo, Novembro 22

tolice #43


FOLHA EM BRANCO

loucas horas do meu tempo
quadros prontos mas sem tinta
de tudo que pinta sou admirador

a beleza é mãe da cor
um retrato de cada mistura
a mais pura vontade do pincel

sei que o céu é possibilidade
sei que a obra é carne crua


Sábado, Novembro 14

musinematura #7


GENERAL JUNKIE : GENERAL JUNKIE



Uma volta a pé pelas ruas vazias de uma noite na Ribeira, acompanhado das estrelas e de um mp3 player. A imagem não é necessariamente uma regra de como se deve escutar este disco, até porque formas existem várias. A idéia é apenas o começo de um clipe que nunca foi inventado, mas que poderia cair bem em alguma das faixas deste trabalho.

Digamos que são trinta e oito minutos e trinta e quatro segundos do mais puro e genuíno rock potiguar. O nome da coisa? General Junkie. O disco foi lançado em 2001, mas se for relançado em 2011 vai continuar sendo atual.

“General Junkie mete bronca. E não sabe quem vai pagar a conta.” A primeira faixa é um aviso. A bronca é um alerta para todos. A conta vai ser dividida por todo mundo. Consumo, lixo, segurança pública, realidade social, era digital, ecologia. Uma síntese dos dilemas contemporâneos de uma sociedade fabricada em série numa era onde os meios de comunicação de massa e as grandes corporações ditam toda e qualquer tendência.

O powertrio, como costumam chamar essas formações em trinca rocktrônica, é composto por Paulo Souto, Marcelo Costa e Gustavo Lamartine. E a questão é mais simples do que parece. Porque, na ótica do General Junkie, tudo isso que é supostamente descartável e que geralmente é desperdiçado pode virar música. Estamos em tempos de reciclagem.

Em Sinfonia Celular, faixa sete do disco, a banda traça um panorama da nossa realidade telefônica futura. “Vão ligar pra te encontrar. Te encontrar pra perguntar. Perguntar em que lugar você está.” Como uma profecia, a banda emite suas freqüências sonoras para além do lá em que o telefone é afinado. É, aquele som de linha telefônica liberada é um lá. Lá maior, a propósito.

Em Refloresta e Fiscal da Natureza, faixas onze e treze respectivamente, a banda fala das questão ecológicas, denuncia a exploração ambiental e afirma sua intenção: “General Junkie, fiscal da natureza, varrendo o sistema, fazendo a limpeza.”

General Junkie, banda e disco, cumpre seu papel de cidadão no mundo da música e costura todas as espécies de temas atuais em um tecido admirável. Tecido que levantado ao vento soa como a bandeira de um tempo onde a liberdade de expressão atingiu seu mais alto lugar. A bandeira tremula no céu como as guitarras distorcem na terra. É dia de rock.

A música do General é produto de experiências práticas pelas ruas de Natal. É resultado dos dia-a-dias dos caras da banda, do cotidiano da cidade, das realidades de quem percorreu a cena noturna e musical da cidade por curiosidade e diversão.

General Junkie é um disco único na história do rock potiguar. Veio pra ficar e daqui não sai. Tanto que é disputadíssimo pelos colecionadores e amantes do rock nordestino. Não está mais nas prateleiras das lojas e nem a venda na internet. Se você tiver sorte, vai acabar encontrando um amigo que tem. Difícil é convencê-lo a emprestar.


// General Junkie / em mp3 para download


tolice #42


EM CADA SEU SOU UM

em seu ar, sou sujeira
em seu olhar, sou poeira
em seu peito, sou fumo
em seu acordar, sou uno

o que seria mais seria eu
além do sentir ou existir?

gargareja-me, se quiser
cuspa-me, se preferir!

em seu pescoço, sou osso
em seu corpo, sou torto
em seu busto, sou susto
em seu ventre, sou sempre


Sexta-feira, Outubro 23

conta outra #17


UMA FRAÇÃO MÍNIMA
imagem de sam weber



Eles não perderam tempo ao me ver no caminho. Partiram juntos, em sincronia, instantaneamente. E do mesmo jeito que partiram, pousaram mais adiante. Saíram do chão, do pé da calçada, e alcançaram os fios, que levam energia.

Partiram juntos e pousaram juntos. E da mesma forma que chegaram e partiram, fizeram isso novamente, enquanto eu continuava a dar meus passos. Saíram dos fios de energia e foram em direção a árvore. Quando lá chegaram, pousaram quase ao mesmo tempo. Dessa vez, o galho de um era um pouco mais distante que o do outro.

Uma fração mínima de tempo e espaço, que pouco fez diferença, e assim como foi da outra vez, foi mais uma vez novamente. Ambos pousaram juntos. Cada um dos passarinhos.


Sexta-feira, Outubro 2

poemas de última hora #1


um homem assando frangos
no espeto

é a estética do carro

o outro debulha pensamentos
na cadeira de balanço

como rango?
como penso?
como meto?
como danço?
como escarro?


Quinta-feira, Setembro 24

espirros #2


ESTÁTUAS

Quando as pessoas têm uma idéia fixa sobre as outras, fica difícil elas verem que um ser é um ser. A idéia fixa aniquilou essa possibilidade, e tornou aquelas pessoas meras estátuas. Elas olham as estátuas que criaram e dizem: "você não é capaz de mudar."

Como elas vão ver movimento, se o olhar delas só cria estátuas?


Segunda-feira, Setembro 21

divagando por aí #11


UM DESPERTAR PARA O AGORA
imagem de autor desconhecido



Raiar para um novo dia que sempre vem. Raiar: de um despertar para o agora. Um raiar de sentir as batidas do coração e estar atento ao fluxo da respiração. Um raiar contínuo, em movimento na superfície, mas calmo e imóvel como um abundante oceano em sua profundidade.

Nossa proposta é despertarmos juntos. Porque não há evolução que possa acontecer apenas individualmente. Apesar do trabalho ser individual, afinal é cada um por si, trabalhando em si mesmo e por si mesmo, sua repercussão e valor vão se mostrar coletivamente. O um por todos e todos por um. A descoberta da própria essência. A pluralidade da individualidade, a diversidade da universalidade.

O raiar tem a missão de refletir com transparência a luz do sol. De fazer brilhar dentro do plano humano na Terra uma realidade consciencial cada vez mais pura. A missão do raiar é preparar os homens para adentrarem eles mesmos. É tirá-los da ilusão, das falsas distâncias criadas pelos conceitos antiquados, removê-los do esquecimento quase que completo de si mesmos.

É no tranquilo respirar, no contato com a natureza, no silêncio, na brincadeira, no sorriso, e também na colaboração, na amizade, no diálogo e na harmonia, que o ser aspirante a se humanizar vai encontrar o espaço fecundo para brotar em total integridade. Estamos falando de uma evolução livre. Essa é a proposta real do raiar.

A vida pode apresentar muitos caminhos. Mas qual é o seu? Para onde você vai? O raiar quer ajudar a esclarecer essas e outras questões, colocando a humanidade em contato direto, na prática, com experiências e vivências de interação total com as bases do ser. O raiar está fundamentado na humildade, na simplicidade e na espontaneidade.

O raiar serve como um elo e portal de ativação de qualidades básicas, inerentes ao ser humano em seu estado integrado e divino, como a gratidão, a generosidade, o bom humor, a tolerância e a compreensão.

Mais do que uma escola, ou uma instituição de educação voltada para verdadeiros mestres, eternos aprendizes, o raiar objetiva servir como suporte vivo e atuante na construção de um novo mundo. O tempo de paz já está aqui e cada sol que nasce anuncia a presença desse sagrado momento. É firmado no presente, centrado no aqui, fluindo no agora, que o raiar apresenta o próprio homem como resposta para todas as suas perguntas.

Um projeto dinâmico que assume o desafio de se adaptar ao momento presente e refletir com transparência, inocência, autenticidade e autonomia as vibrações de uma nova era que sempre esteve ao alcance de todos. O raiar assume a responsabilidade de trabalhar ativamente na atualização e reciclagem da humanidade, transformando os seres para uma vida de amor e revalorizando o ser humano como um todo, completo, íntegro, digno e perfeito.

A missão do raiar pode aparentar um pouco utópica. Mas é justamente sobre a utopia que descansa o próximo dia que vai raiar. É por ele que estamos trabalhando. O raiar é um evento para trazer ao hoje o homem que espera chegar amanhã. Um desafio assumido não apenas para ajudarmos a criar alternativas de sobrevivência diante do falido modelo de humanidade estabelecido, mas também para oferecer uma saída clara e segura de padrões alienantes e escravizantes. Servir como uma pausa no velho discurso, ou um abrir os ouvidos para o chamado interior.

O raiar se propõe a trabalhar as bases de uma nova sociedade, educar os habitantes das novas cidades, fundamentando suas atividades em ensinamentos ressonantes com o propósito maior que estamos assumindo. Ecologia, espiritualidade, permacultura, simplicidade voluntária. Mais do que temas, nossa metodologia consiste em transcender temáticas e se libertar inclusive dos métodos.

Um convite a um despertar pleno e realizado. Um encontro para mantermos viva a chama da felicidade, sempre acesa no aqui e agora. O raiar surge então no horizonte, como um espaço vasto para brotar a presença.

Tudo está pronto. Mas podemos sentar e ficar em silêncio? Podemos levantar e nos divertir? Podemos deitar e dormir em paz? Existe um fim para as perguntas e nele se encontra o despertar, para uma nova vida e um novo ser.

Assim como a borboleta, chega o dia do homem deixar o casulo. Como voar? É uma coisa que vamos ter que aprender todos juntos.

E assim, nasce o raiar.


nem todos têm título #5


busquei cedo a liberdade
antes que ficasse tarde demais
agora não há como voltar atrás
daqui pra frente é outra história


Quinta-feira, Setembro 3

assim como se nada #14


O MOVIMENTO DOS MARES
imagem de heiko windisch



Uau. Parece estar sendo altamente produtivo e construtivo esses dias no yoga pela paz. Essa musicalidade e tudo mais, os asanas e a meditação. Muito aprendizado, aperfeiçoamento, bhakti e karma yoga. Lendo suas palavras sinto a paz e fluidez que encontra nessas atividades. Bom saber, bom ler, bom ver tudo isso acontecendo. Na espontaneidade, naturalmente.

A luz está presente sempre, sempre esteve e sempre estará. A capacidade de vê-la e desenvolvê-la e empregá-la aumenta à medida que o homem ultrapassa a cadeia de causas efeitos e se deixa movimentar à favor da energia superior. Então muita luz, para todos aqueles dispostos a ver. E para os indispostos, que a luz se faça na medida do possível.

Estou sentindo o movimento dos mares, a sucessividade das ondas. Manter a firmeza, sustentada no centro, invulnerável ao deslocar de estados, as mudanças de posição.
Conservar o ânimo decidido, em perspectiva ascendente, neutro e imparcial, rumo a onipotente justiça divina. Alinhado com o presente, e a vontade maior expressada pelo agora.

É sim um tempo de recapitulação das regras básicas. Aquelas que não podem ser chamadas de regras, porque não foram instituídas por outros que não nós mesmos.
Aquelas que determinam os cenários da nossa vida, os contextos, e as provas a serem cumpridas. Não regras inventadas por homens dispostos a fazer outros baixarem a cabeça e cumprir ordens, sejam elas quais forem, mas regras universais auto-ajustadas a cada tempo e indivíduo, a cada cosmos e realidade.

O nosso dever enquanto ser pensante em transição planetária é estar consciente, plenamente, integralmente, como a yoga aurobindana nos ensina. Dentro deste nível, o papel não é outro que não abandonar de vez o mundo antigo, e conservar só aquilo que continua novo e por isso resiste ao tempo, e com razão. A abertura pro novo também pede o mesmo cuidado, que pode ser melhor definido como discernimento. Estar atento para não sucumbir às novidades, e esquecer ainda mais da eternidade incomparável do momento presente.

Estamos sim aqui e agora, e tanto dentro como fora podemos ver os desdobramentos disso tudo que vem sendo chamado de evolução da humanidade. Mais que a vontade determinada de comunicar aos irmãos a verdade da nova era, que nunca foi tão nova, e mesmo assim continuará sempre sendo a ser, existe uma vontade de simplesmente fluir em paz com tudo isso. E como é bom fluir em paz. O momento próximo continua sendo esperado, nos momentos de fuga do presente. Mas quando aqui e agora, atento e consciente, o sagrado mais uma vez se revela e se mostra acessível a qualquer um.

A nova era é agora. O passado ou o futuro também são agora. O que pode estar fora do agora? Ou dentro? Será que a noção de agora não abarca tudo isso?

Não são perguntas. Apenas cantos pra lua.


falando nisso #8


é isso

uma poesia
um trema que morreu
uma antena quebrada

uma azia malcurada
um poema de pau duro

um tiro no escuro
nem sempre sai pela culatra


Terça-feira, Setembro 1

espirros #1


NOVE DO NOVE DO NOVE

Chama acesa no amor.

Sim, é sempre válido celebrar. 9 do 9 do 9 é para confirmar em sincronia, união e integridade. Toda beleza de servir, toda força de devotar, toda sabedoria de contemplar.

Sim, ser é o verbo, mas amar é a ação. E eu te amo.

9 do 9 do 9 já está acontecendo. Não precisamos chegar lá para vermos que ele já está aqui. É o agora em movimento, especulando sobre um futuro que só existe aqui. Mas sim, sim, sim: quando o calendário vestir a roupa 999 os homens vão encontrar mais um motivo para se reunir e confirmar.

O importante é estar nesse yoga coletivo, devotado e celebrativo agora. Oferecer essas oferendas agora. Fazer essa roda de amor agora. Importante é já estarmos unidos agora, nessa casa maravilhosa, nesse dia especial.

9 do 9 do 9 é um outro nome que os homens encontraram para se sincronizarem com o eterno momento presente. Salve, salve o agora.


Sexta-feira, Agosto 21

divagando por aí #10


ASSASSINATOS, CULPAS E PUNIÇÕES
imagem de autor desconhecido



Como se a matança coletiva do assassino daquela menina fosse extinguir pela raiz a árvore dos assassinatos. Ora, não seria, pois, tal matança ainda um fruto da mesma árvore? Agora comandada por mais galhos do que a outra. Se cada galho assassino que brotar criar junto com ele mais cem galhos, a árvore dos assassinatos está fadada a crescer com abundância e velocidade. E logo será a mais fértil da região, se espalhando pelas terras e ocupando novas áreas. Eis o vale de sangue e putrefação.

O cheiro de morte e as cores acinzentadas que se destacam nesse quadro não são privilégio de ninguém em especial. É justamente a falta de alguém, alguém ciente do que é, consciente do que somos, que pinta de horrores esse quadro.

Estamos ou não estamos preparados para dar a outra face? Contra o fogo usamos fogo? E ainda estamos nos tempos do contra? Quanto precisamos sofrer para reconhecer o sofrimento como fruto da nossa própria miséria? Quantos precisam morrer para por fim percebermos que quem está matando e morrendo somos nós mesmos? Quem está disposto a aceitar Hitler, a aceitar Jesus, Buda, Krishna, como simples manifestações da natureza exercendo as possibilidades do reino humano?

Eles não são nada além de nós. Eles sempre estiveram em nós. Eles surgiram e surgem de nós. O que somos afinal? Porque tantos revólveres engatilhados e pétalas de rosas oferecidas?

A natureza tem a forma humana como laboratório de refinamento, aperfeiçoamento e potencialização de energias. O ódio, a indiferença, a insensibilidade de Hitler, não são de Hitler, mas nossos. O que foram os grandes ditadores e assassinos além de nossa vontade manifestada? Colocamos o poder nas mãos dos outros e nos abstemos de opinar, agir. E mais do que isso: de aceitar. É tão difícil aceitar que este mundo, criado com tudo que chamamos de bem e mal, é fruto único de nossa criação?

Hitler só existiu porque nós o fizemos. A vontade de poder do povo, a sede de impôr suas diferenças e de fazer prevalecer suas regras, o ódio contido e louco para explodir: são esses os criadores de Hitler. A natureza não é tão má assim, nem tão boa. Ela simplesmente expressa os nossos desejos e necessidades. Quisemos criar Hitler para satisfazer nossas aspirações. Hitler nos ensinou sobre a forma que nos tratamos, relacionamos, respeitamos. Fomos nós que clamamos por Hitler, e o tivemos.

Da mesma forma Jesus, Buda, Krishna. O nosso carinho, respeito, companheirismo, fraternidade, espírito de igualdade, justiça, harmonia, criaram esses seres como símbolos, imagens visíveis do que somos e podemos ser. Jesus não é ninguém. Jesus não existe. Nós o criamos, nós o vemos, nós o estabelecemos como algo a ser visto, contemplado, seguido ou rejeitado. Jesus é tão somente um espaço-tempo que a natureza encontrou para expressar explicitamente nossa realidade dentro da dimensão que habitamos.

Assim, pois, como o assassino da menina. Seria ele alguém pior do que nós? Nem melhor, nem pior. Ele é nada mais nada menos do que nós mesmos. Vejamos bem quem somos sem nos identificarmos com essas cenas ou personagens. Estamos prontos para nos reconhecer, além do bem e do mal?

Mas se querem mesmo falar de assassinatos, culpas e punições, o assassino é aquele debilitado e desconectado que cometeu a crueldade de destruir uma vida inocente, ou os assassinos são aqueles indispostos a se mobilizar ou insinuar qualquer gesto em favor do amor, mas que na presença do ódio logo se mobilizam e se armam prontos para cometer crueldade ainda maior contra aquele a que chamam de cruel?

O que é mais cruel: matar uma menina inocente ou se fingir de inocente matando outro menino? Nenhum dos dois, obviamente. Ambos são cruéis. Olho por olho, dente por dente. Crueldade por crueldade, assassinato por assassinato. Se é essa a justiça dos homens, é essa a vida que escolheram ter. Mas onde reinar a justiça divina, a morte será divina, e a vida também.

Por que nos apegamos à morte da menina, se ela continua viva em nós? Por que queremos matar seu assassino, se ele continuará assassinando através de nós? Agora, pior do que se apegar ou querer matar, é continuar fechando os olhos para a luz que nos faz ver.


primavera uma vez #20


TRANSPORTE PÚBLICO

no coletivo
voltamos pra casa

todo santo dia
somos mais de um

nenhum de nós
faz meia viagem

pagamos inteira
no coletivo


Quarta-feira, Agosto 19

conta outra #16


O SIGNIFICADO DA EXCEÇÃO
imagem de torres garcia



Acaba de me acontecer uma daquelas coisas mágicas. Aquelas que podem passar despercebidas, como se não tivessem valor nenhum, quando estamos desatentos. Bem, não foi o caso, dessa vez eu estava atento até demais.

Por falar em demais: será que a atenção excessiva, o foco centrado, não na parte nem no todo, mas na coisa em si, com todas as suas inerências e vicissitudes, pode chegar a ser algo prejudicial? Dizem que tudo demais faz mal. Mas essa regra se aplica à atenção? Se aplica ao respeito, à dignidade, à justiça? Se aplica à harmonia? Se aplica ao amor? Ou levar a regra a sério demais é contradizer a própria regra, e portanto melhor seria compreender o significado da exceção, antes de seguir em frente sem a noção do que as coisas são em sua essência?

Bem, tudo no seu tempo. Uma coisa de cada vez. Todas ao mesmo tempo e todas de uma só vez. O fato, o caso que eu relato, o que de contável me aconteceu, foi o seguinte. Estava eu aqui em minha paz, em casa, escrevendo mais um daqueles e-mails compartilhadores de idéias. Dessa vez me preparava para enviar o segundo de uma série despretensiosa, focada nas possibilidades possíveis.

No primeiro e-mail que enviei, escrevi: “Sim, é possível olhar a(s) coisa(s) de outra(s) forma(s).” E junto colei a imagem de La Escuela Del Sur, uma arte-mapa conceitual, colocando o nosso norte na parte baixa da América do Sul. Colocando, em resumo, o sul como o nosso norte. Uma simples inversão de perspectiva na forma como olhamos o mundo, a partir de onde vivemos e estamos, para percebermos que é tudo uma questão de ponto de vista.

Já no segundo resolvi enviar outra frase parecida, na mesma linha, que chegou do nada, enquanto eu nada fazia. Ela dizia: “É possível sim tomar conhecimento de outra(s) realidade(s) e trabalhar por ela(s).” Nesta eu ainda não havia colocado imagem. E enquanto pensava em que visual usaria para ilustrar a mensagem, resolvi colocar uma musiquinha pra embalar o movimento.

Dois cliques na pasta Musicalizando. Encontro categorias, ritmos, vertentes, sonoridades. Meio que no automático, sem demonstrar preferência, dou dois cliques em Étnicos & Regionais. Me deparo com uma lista de pouco mais de dez artistas, e como que por impulso, meio que sem pensar, escolho Fela Kuti. Sem nem ver direito a relação de músicas, clico na primeira que aparece na frente. E qual é o nome dela? “It´s no possible”

Qual é a possibilidade de um encontro conceitual desses acontecer? Qual é a probabilidade de uma contradição factual dessas ser percebida? Não vamos nos limitar aos números, nem as perguntas, mas somente constatar que há muita coisa acontecendo. E as coisas mais relevantes muitas vezes vêm vestidas das coisas mais bobas. Essa é a grande contradição, o grande encontro.

Estamos prontos para unir as duas metades? Vamos percorrer começo, meio e fim em cada passo do caminho?


tolice #41


CIRANDA

o bloco passa
o passar não

a folia nunca acaba
quem tem fim é carnaval

assim a dança é sempre
um sucessivo vai e vem

a mudança então não pára
hoje é dia de dançar


 
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